EUA: Filme sobre marco do movimento gay é boicotado por grupos LGBT

Não se sabe muito bem quem atirou a primeira pedra –ou melhor, o tijolo– que inflamou a rebelião de Stonewall. O motim, ocorrido no verão de 1969, em Nova York, é tido como grande marco dos movimentos por direitos gays.

Na visão do diretor Roland Emmerich, quem fez isso aos berros de “gay power” foi um homem jovem, branco e de trejeitos bastante masculinos, tipo muito mais palatável a plateias heterossexuais do que muitos dos que zanzavam pelo Village, ao redor do bar que dá nome ao filme.

“Stonewall – Onde o Orgulho Começou” estreou nesta quinta-feira (29), na esteira de um boicote feito pela própria comunidade LGBT americana, indignada com o retrato do episódio histórico.

“Eu quis fazer um filme que não fosse só para gays”, afirma o diretor à reportagem. “Na época, não se podia nem deduzir se alguém era gay, de tão enfurnadas no armário que as pessoas estavam. Então achei que a forma como retratei aquilo foi realista.”

A trama segue Danny (papel do inglês Jeremy Irvine), que abandona a família e a cidadezinha homofóbica em que vive no Estado de Indiana. Vai para Nova York, acolhido por um grupo de gays sem-teto, entre eles o escolado Ray (Jonny Beauchamp).

Homossexual, Emmerich é famoso por blockbusters cheios de heróis valentões. São dele os filmes-catástrofe “Independence Day” (1996) e “O Dia Depois de Amanhã” (2004). A imprensa americana não perdeu a piada: com “Stonewall”, ele enfim fez um longa de fato catastrófico. Orçado em cerca de US$ 13,5 milhões, faturou apenas US$ 188 mil (R$ 611 mil) nos EUA. As críticas despontaram logo que o primeiro trailer saiu.

A organização Gay-Straight Alliance Network colheu quase 25 mil assinaturas ao conclamar ao boicote, sob o argumento de que o filme marginalizava o papel de negros, lésbicas e transexuais, mais importantes para o levante do que o filme dá a entender. “Incomodou-me que uma única voz na internet tenha a capacidade de fazer o que fez a um filme”, diz o diretor. “Especialmente quando a opinião é baseada num trailer, e não no longa em si.”

Emmerich se defende das acusações de racismo e transfobia. “Passei muito tempo conversando com os veteranos de Stonewall, que me disseram que as manifestações foram formadas majoritariamente por pessoas brancas.”

A ativista transexual Miss Major Griffin-Gracy, que participou do protesto em 1969, discorda: “Podem chamar aquilo de embranquecimento. Eu chamo de mentira”, disse ao site The Wrap.

SEM-TETO

O levante irrompeu após a polícia fazer mais uma de suas inúmeras batidas no Stonewall Inn, tradicional ponto de encontro de gays nova-iorquinos. Os frequentadores revidaram com tijolos, parquímetros, latas de lixo e o que mais havia na rua. O episódio inspirou o início das atuais paradas do orgulho LGBT.

O longa usa o forasteiro Danny como recurso didático para expor os primórdios da militância LGBT na Nova York do fim dos anos 1960. De um lado, os intelectualizados membros da sociedade Mattachine, que pregavam  que homossexuais deveriam vestir gravatas para ser bem-aceitos pela sociedade; de outro, os garotos de rua, que sobreviviam de programas e pequenos golpes, davam pinta e apostavam na transgressão.

O diretor, nascido na Alemanha, disse ter sido atraído pela ideia de levar o protesto às telas ao tomar conhecimento das estatísticas de que boa parte dos sem-teto americanos fazem parte da comunidade LGBT –a grande bandeira que “Stonewall” defende. “Percebi que é um problema que só piorou. Foi uma forma que usei para conectar o filme à realidade de hoje.”