Primeira Travesti em cargo executivo vira questão em concurso federal

A primeira travesti a ocupar um cargo público no Mato Grosso do Sul, Cris Stefanny, 35 anos, foi tema da questão 14 da prova para contratação de professores do IFMS (Instituto Federal de MS), realizada no fim do mês passado.

Atuando há 20 anos como militante na área de direitos humanos, Cris Stefanny, 35 anos, tem uma série de planos voltados à população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) do município de Campo Grande. Nesta terça-feira (3), ela tomou posse como coordenadora de Políticas Públicas LGBT e é a primeira travesti a assumir um cargo no executivo municipal em toda a história política de Mato Grosso do Sul.

A militância trouxe o mérito de ser citada na prova para professores da IFMS em dez municípios, na matéria de sociologia.

Para Cris, a temática precisa ser discutida em todas as instituições de ensino.

“Acho que já passou da hora das instituições de ensino em geral galar da temática LGBT, não por uma questão de imposição, mas entender que essas pessoas existem merecem respeito”, afirma.

A resposta para a questão foi a alternativa C, “o sexismo é uma das formas de exclusão social”. Os aprovados da prova serão convocados no próximo mês, no dia 14, para a prova de desempenho didático e títulos.

Cris Stefanny também ajudou a fundar a ATMS (Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul), onde se tornou presidente da entidade em 2001. Desta forma, ela contribuiu para combater a violência contra a classe. “Naquela época tinha perseguição policial contra as travestis, principalmente, as que atuavam como profissionais do sexo. Com a criação da ATMS, nós conseguimos implementar ações e projetos de lei com apoio do Governo para evitar este tipo de ação”, explicou.

Ela lembra como foi difícil trabalhar à frente da associação, porque até mesmo as travestis não acreditavam que daria certo. “A violência era tão grande que todas elas achavam que o destino final seria a morte. Então a associação veio exatamente neste sentido, para trazer um fôlego de esperança para aquele grupo que já estava excluso do recinto familiar, escolar e social”, apontou.

Assumindo a coordenadoria de Políticas Públicas LGBT, Cris pretende instalar na Capital ambulatórios do processo transexualizador, com o apoio do Ministério da Saúde. “Ainda não existe no Estado e precisamos que os municípios se adequem para receber estes ambulatórios. Sei que a coordenadoria é um órgão novo então vai ser difícil obtermos recursos financeiros, mas se Deus quiser com um plano estratégico, teremos conquistas para a classe”, comentou Cris.

Como coordenadora, ela pretende efetivar a Lei do Nome Social promulgada pela Câmara Municipal e colocar a Parada do Orgulho LGBT no calendário municipal de cultura, porque, apesar de ser um evento público, a parada não é considerada cultural, como no Estado de São Paulo. Desta forma, Cris pretende conseguir recursos da prefeitura para a realização do evento, como por exemplo, aquisição de insumos para contratação de banda, tendas e banheiros químicos. Hoje a parada é feita apenas com recursos do Ministério da Cultura.

Cris também pretende criar o Conselho Municipal LGBT e conseguir cursos de capacitação para gestores da saúde, segurança pública, entre outros setores, para melhor acolher e fazer um atendimento humanizado ao público LGBT.

Nestes 20 anos lutando pela público LGBT, Cris conseguiu que a Lei de Combate à Homofobia entrasse em vigor em 2006. Conseguiu ainda a criação do Conselho da Diversidade Sexual, que atende o público LGBT. “Me sinto honrada e assumir a coordenadoria é um reconhecimento dos meus 20 anos trabalhando para garantir os direitos à população LGBT. Continuarei trabalhando com a mesma fama de lutar pela igualdade de direitos humanos”, concluiu Cris.

Cris tem o ensino médio como formação. Na vida, ela já trabalhou como vendedora de flores, roupas, perfumes e livros, além de ter já atuado como profissional do sexo.